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Construindo a hipótese científica


Após muitos anos de experiência com análise de dados e auxiliando pesquisadores nas mais diversas áreas do conhecimento, passei a observar e compilar alguns dos problemas mais críticos para a execução e fechamento de trabalhos científicos.

É muito comum pensarmos em quais técnicas estatísticas iremos empregar somente após já termos todos os dados coletados em mãos. A realização de um trabalho científico requer uma série de passos, que se forem executados com consistência, irão facilitar em muito as conclusões sobre os fenômenos que pretendemos analisar.

Um ponto muito crítico para o planejamento de um estudo científico reside nos primórdios de nossas escolhas que é a definição de uma hipótese científica. Sempre temos uma certa facilidade para determinar com qual grande área gostaríamos de trabalhar ou desenvolver um trabalho científico. Se vamos escolher trabalhar com Ecologia, Genética, Biologia Molecular, Filogenia ou Evolução, muitas das vezes, não nos damos conta do quão ampla cada uma dessas áreas pode ser.

Escolhendo uma área como a Ecologia, percebemos rapidamente que esta possui uma ampla interface com diversas outras áreas, sem contabilizar os conhecimentos puramente inerentes e conceitos exclusivos dessa temática. Após definir um grupo-alvo no qual pretendo realizar um experimento, ainda assim muitos temas podem ser desenvolvidos.

Então vamos dizer que pretendo trabalhar com peixes. Temos espécies marinhas, estuarinas, dulcícolas e até mesmo de poças temporárias. Se pretendo trabalhar com uma espécie típica de água doce, preciso ter em conta as diversas forças e fenômenos naturais que irão influenciar meu tipo de pesquisa. Após definir com clareza o objeto do estudo, peixes guppies, posso dentro da área de ecologia desenvolver trabalhos sobre a história natural da espécie, seleção sexual, recrutamento, estrutura populacional, padrão de distribuição, predação, relações inter e intraespecíficas, entre outros.

Então, digamos que após muito pensar sobre o assunto, eu pretenda desenvolver um experimento sobre a predação em função do gênero. Geralmente, encontraremos na teoria desenvolvida que as fêmeas tendem a ter maior capacidade predatória, uma vez que necessitam de maior energia em períodos reprodutivos. Assim, minha hipótese seria de que as fêmeas apresentam maior capacidade predatória, tanto em quantidade quanto velocidade, em comparação com os machos.

Desta forma, o que seria a hipótese científica e como construir uma? A hipótese científica é uma predição, ou sugestão, direcionada que busca ser sustentada por um argumento central ou teorias já desenvolvidas. Por exemplo, se eu dissesse que os guppies machos apresentam padrão predatório diferente das fêmeas não estaria esclarecendo em que direção cada gênero estaria definindo sua estratégia de alimentação. Dizer ou esperar que as coisas sejam simplesmente diferentes não esclarece o sentido dessa diferença. É como se, caso fosse trabalhar com morfometria de determinado organismo bioindicador de qualidade aquática em ambientes perturbados e conservados se construísse uma hipótese de que os tamanhos são diferentes nas duas áreas. Para construir uma hipótese científica bem pautada, nesse caso poderíamos construir a seguinte predição de que os indivíduos que habitam áreas conservadas são maiores que os que habitam áreas perturbadas ou impactadas. Nesta segunda predição melhor elaborada fica claro que a perturbação influencia negativamente o desenvolvimento do organismo sobre vários aspectos que poderiam ser a velocidade da corrente, temperatura da água, densidade ou diversidade de fito e zooplâncton, entre diversos outros fenômenos que podem interferir no desenvolvimento desses dois distintos grupos. Então, apesar da minha hipótese ser definida, vários fatores podem explicar essa diferença, mas, uma vez que definimos a hipótese científica do estudo, todo meu planejamento, recursos, dinheiro, estrutura e mão-de-obra ficarão melhores alocados para desvendar qual a chave para explicar a diferença que pretendo observar.

A partir daí posso escolher áreas que sofrem assoreamento, de áreas que não sofrem assoreamento, ou áreas de elevadas densidades ou diversidades de fito e zooplâncton com áreas de baixas densidades e diversidade. Para cada fator, posso construir uma hipótese mais direcionada e melhor sustentada pelo direcionamento da pesquisa. Por fim, antes de coletar, tenha em mente qual a sua hipótese científica e de que modo a resposta ao seu questionamento inicial pode contribuir para um melhor entendimento dos fenômenos em análise e engrandecimento da ciência.

Quer saber mais sobre Estatística!? Acompanhe nossas postagens semanais!

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Alexandre Azevedo é biólogo formado pela UFMA e especialista em Gestão Ambiental e Responsabilidade Social pela ENE. Ministra cursos e treinamentos de Bioestatística para a área das Ciências Biológicas e da Saúde.

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